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Na prática, o que mudou?

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Muito se fala da evolução do esporte aqui no Brasil, mas na prática o que mudou? Os mais novos ouvem de toda essa mudança mas será que sabem como era? Vou tentar voltar um pouco no tempo aqui e tentar ilustrar melhor tudo isso, lógico que tendo em vista minhas próprias vivências, observações e memória que não é muito boa.
 
Pra começar vale lembrar que na época não tínhamos internet, não tínhamos Muayties, não tínhamos Yoksutai, Acervo Thai, Muaythai em Foco, Sabai Supply, que trazem informações e notícias a todo momento em sua timeline, aliás não tinha Facebook, nem Orkut tinha para trocar informações com outros praticantes. Não tínhamos essa facilidade de ir e vir da Tailândia. 
 
A Tailândia era tipo a ilha de Lost um lugar desconhecido onde os poucos que foram tinham que ter coragem de largar as coisas aqui gastar dinheiro e ir para um lugar que não tinham a mínima ideia do que iriam encontrar e viver. Então antes de reclamar ou falar mal se imaginem em todo esse cenário. 
 
Claro que isso tudo não é desculpa para não acompanhar a evolução, como profissional de qualquer área é fundamental a reciclagem para não ser naturalmente engolido. Isso se vê na prática aqui, equipes potências anos atrás já não são as mesmas, os ídolos já não são os mesmos, nossas influências e referências mudaram. Em pouco tempo houve uma revolução no cenário nacional.
 
Não vou entrar aqui no mérito de quem iniciou, quem foram os pioneiros ou citar nomes de pessoas e equipes. Não vou entrar nesse mérito, irei apenas ilustrar na prática muitas mudanças que ocorreram.
 
A verdade é que começamos. Errados ou certos começamos, com muitos achismos e influências de outras artes como kickboxing, taekwondo e boxe. Mas tudo que passamos fez parte e devemos respeitar os mais antigos que já trabalhavam muito antes das facilidades de agora. Respeitar nem sempre é concordar ou ter que fazer igual mas dar valor pelo menos a tudo que já viveu e construiu.
 
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A real é que tudo mudou e quando digo tudo é tudo mesmo, lutas sempre de 3 rounds, não existia corrida no julgamento, eram comuns golpes rodados, chutes giratórios, pêndulos, esporadas (que quando pegava doía pra cacete). Dinâmica de luta, movimentação, guarda, regras mas principalmente o dia a dia e a atmosfera, tudo que envolve o esporte mudou. Literalmente se pegar um moleque hoje que já começou a treinar certo e voltar no tempo com ele a 15 anos atrás provavelmente terá um colapso.
 
Vamos começar pela rotina de treinos. Não tínhamos essa divisão de treino comercial e atletas pelo menos não por onde passei, no máximo um treino “especial” 1x por semana. Fazia as aulas e quem tivesse interesse e se destacasse ia para as competições. 
 
Isso porque aula comercial não tinha muito esse lado fitness quem entrava era quem queria aprender a lutar, competidor ou não o treino era o mesmo para todos, o número de mulheres no tatame era absurdamente menor, e não é discriminação antes que venham me apedrejar, mas antes as mulheres não tinham muito interesse. O Muaythai era visto como um esporte muito violento e só quem era meio perturbado das ideias procurava, e mais perturbado ainda quem permanecia.
 
O couro comia dentro das aulas, alguns métodos hoje já superados eram usados como calejamento que hoje sabemos o quão absurdo é mas não tínhamos esse entendimento. Formávamos duplas e combinávamos golpes onde o corpo do colega servia de aparador afim de suportar mais e ter maior resistência a dor. 
 
Além do sparring quase todo dia, e não existia Len Cheung, era porrada, um tem 60kg outro 80kg? Bora! Digo por mim, já nocauteei e fui nocauteado, já me machuquei seriamente muito mais em treino do que lutando. Tinha que gostar e ter disposição de sair na mão.
 
E não existia aqui Twins, TopKing aquela época. O que tinha eram as luvas surradas da academia. Caneleira? Era luxo! quando muito aquelas de elastano fininha de velcro atrás ou as simulando meião que nos mais altos iam até a metade da canela apenas. Colocávamos só por desencargo de consciência porque não adiantava muita coisa não.
 
O trabalho de aparador era totalmente diferente, cinto e caneleira pra comandar não eram usados, fazíamos sequências fixas onde eram repetidas determinadas vezes, elaborava outra sequência e assim por diante. 
 
Não tínhamos o hábito da corrida, dificilmente um lutador corria todos dias, dávamos mais valor à musculação, puxar ferro do que a corrida. Clinche também era outro fator que não treinávamos muito, até porque não tínhamos conhecimento técnico para isso. Nosso clinche se baseava pela pegada por dentro e fora no pescoço e cinturão por baixo. Lock, travas, projeções, o que vale mais ou menos, tudo isso era desconhecido. Então era até sem fundamento passar 20 30 minutos fazendo isso. Eram dois se estapeando para tentar pegar o pescoço com as duas mãos e descer o colega. Na luta ninguém procurava clinchar, a não ser que conseguisse essas duas pegadas por dentro no pescoço e saia batendo joelho igual um maluco ou se estivesse cansado. Hoje sabemos que clinchar cansa mas na época era a fuga, abraçava e ganhava uns segundos até o árbitro separar.
 
Cotovelo segue a mesma linha. Sabíamos que existia, que na Tailândia valia mas não sabíamos como usar, e nos eventos não eram permitidos, então também não era muito treinado, não tinha muita lógica treinar uma coisa que não se sabia e não se podia usar na competição.
 
E por falar em competição tínhamos poucos eventos, em sua maioria pequenos organizados dentro de academias. Tínhamos que viajar muito para competir, Curitiba, Rio de Janeiro, São Paulo eram onde haviam mais competições. Ainda mais antigamente rolavam desafios, visitas em academias onde saiam na mão lá dentro pra ver quem era melhor. 
 
Nos poucos eventos “organizados” não sabíamos o que iriamos encontrar, e é cada história absurda que se juntar as que já ouvi daria para escrever um livro. 
 
Mas o comum era não ver o adversário pesando e conhecê-lo apenas em cima do ringue ver o tamanho do cara e perceber na furada que se meteu. Atletas nível profissional com estreantes, ringue improvisado das mais absurdas maneiras, isso quando tinha ringue. Vestiários separados não só pela privacidade pré luta mas porque era perigos as equipes se pegarem antes da hora. A rivalidade era muito grande entre equipes, algumas mais que outras e isso se referia nas torcidas e gritos como “Uh vai  morrer” eram comuns. O clima nos eventos era um pouco pesado. Sem contar que tradição como mongkon, phuangmalai, wai kru, rammuay era inexistente e quando tinha era feito tudo errado. 
 
O aquecimento era praticamente um treino antes da luta. Batia aparador, pulava corda, já subia cansado. Não existia óleo para aquecer [também não tinha o Warm Up, óleo nacional que o Cazolari criou e colocou no mercado ano passado ] no máximo passava um doutorzinho com gelol ou algo do tipo nas pernas e ia pra briga. Literalmente, briga.
 
Com a evolução esse entendimento de que é um trabalho e que um depende do outro para a coisa andar veio. O profissionalismo está presente e isso faz toda a diferença até para o crescimento financeiro do esporte. Hoje a molecada se respeita, são amigos e ao mesmo tempo na hora da luta é porrada de gente grande, são muito mais preparados física  e é tecnicamente. Podemos observar muito isso no Thai Kids e no Torneio Yoksutai. Garotos dando uma lição de respeito, qualidade e profissionalismo nos adultos e só tem a melhorar de geração em geração.
 
Outro ponto fundamental nessa trajetória é a Arbitragem. Antes feita por amigos com boné e regata, que nem sabiam o que estavam fazendo ali, sem conhecimento nenhum de regras e pela pressão os atletas da casa geralmente venciam. Hoje temos a AMTI, FEPLAM, EKB a Liga Nordeste que fazem um trabalho sério e responsável e elevaram o nível de arbitragem se tornando entidades profissionais idôneas. Temos acesso a cursos e workshops sobre regras onde todos os treinadores e atletas deveriam se interessar, sendo fundamental para o trabalho.
 
Temos que agradecer por termos bons eventos quase todo final de semana com organizadores sérios, além de estádios como Portuários ou Litorâneos, que era uma coisa impensável tempos atrás. Eventos sendo transmitidos pela TV como EFN e EPIC. Temos  que valorizar, isso é uma conquista dos organizadores mas de todos que trabalham sério pela evolução do esporte desde lá atrás. Então paguem o ingresso, prestigiem, ajudem a manter tudo isso.
 
Ainda temos um longo caminho a percorrer, muitos lugares ainda para a informação chegar, muitas cabeças duras para serem abertas e principalmente na parte de organização do esporte, consciência dos praticantes em investir e prestigiar assim trazendo mais investidores de fora. Os DONOS de federações e confederações que comecem a trabalhar com seriedade em prol do esporte​ acompanhando a evolução. 
 
O EGO é uma palavra maldita que atrasa tudo, medo de reaprender, medo de coisas novas, medo de admitir que não sabe e aprender as vezes com alguém mais novo. E quando sabe, passar essa informação pra frente. Aqui é comum o camarada não saber uma coisa, mas quando aprende, ao invés de ensinar, tira sarro de quem não sabe (sendo que até ontem ele também não sabia).
 
Enquanto isso nossos atletas seguem aqui no Brasil, se virando para sobreviver e fazendo mil atividades simultaneamente. Mas estamos hoje melhor que ontem. Tudo que vivemos fez parte e foi importante para a nossa identidade.
 
Vamos caminhando, um passo de cada vez até a excelência, ou até isso nos matar.

Felipe Cazolari
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Felipe Cazolari

Professor de educação física, treinador do ano em 2016, fundador da Warm Up, constrói academia, é casado, e ainda cuida de 3 cachorros. Fale com ele no cazolari@yoksutai.com, ou no facebook aí do lado.
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