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Canhoto, o ser mais odiado

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Antigamente lutar era mais simples, era só treinar e chegar ao evento para sair na mão. Hoje em dia com a evolução do esporte se tornando cada vez mais profissional e de alto nível cada detalhe faz a diferença.
 
Ao casar uma luta buscamos por informações sobre o adversario, suas características, tanto físicas quanto de jogo e com isso elaborar uma estratégia permitindo explorar as qualidades do seu, dentro das deficiências do outro, onde se resguardar e assim definir o melhor caminho a seguir na preparação.
 
Existem estilos de lutadores dentro do Muaythai, formas de jogar dentro de uma mesma regra para buscar a vitória, e as características físicas tem grande influência ao definir o “estilo” de cada atleta e a estratégia para cada luta.
 
Nesse texto não vou entrar nos estilos de lutadores mas sim em como algumas características físicas podem interferir no trabalho expondo alguns pontos importantes que devemos prestar atenção independente do seu estilo de luta.
 
Existem exemplos que podem ser desenvolvidos, como a força de atletas  nocauteadores ou o “gás” daqueles atletas com “5 pulmões”.
 
 Mas quero tratar do que já nasce com você e são pontos preocupantes para qualquer adversário. Altura e Dominância lateral, ou seja, aquelas girafas da sua categoria e os temidos canhotos que tenho para mim que são seres enviados para atormentar os lutadores destros. Qual o maior desafio?
 
Isso quando não encontramos ambas​ num mesmo atleta como é o caso do Panpayak por exemplo. Alto, de boa envergadura e canhoto para completar o pesadelo.
 
No Muaythai as lutas são divididas por peso que é o mais fácil de controlar e dividir as categorias, porém, na minha visão, a altura acaba sendo ainda mais vantajoso.
 
Porém não adianta ser alto e não saber usar envergadura ou ser mole, ou da mesma forma ser forte e não saber usar a força, ser canhoto e não saber jogar como tal.
 
Reconhecer o material humano que tem em mãos e desenvolver da melhor maneira de acordo com todas as influências é uma qualidade fundamental em um bom treinador. 
 
Mas vamos lá. Geralmente um lutador alto joga em duas distâncias, longa ou colado.
Não existe meia distância, pois entrará no raio de ação de seu adversário e a luta pode se tornar perigosa. 
 
Ou muito longe ou muito perto, clinchando como é o caso do Petchboonchu ou o Yodvicha, que usam seu tamanho para “engolir” seus oponentes. 
 
Ou mantendo afastado com golpes em linha, teeps e chutes na guarda que são as principais ferramentas para isso. Interessante também ter em dia o tempo de golpes de encontro com joelhos e cotovelos, já que os atletas mais baixos uma hora ou outra terão que forçar essa entrada e é onde pode se achar bons golpes.
 
Já um atleta mais baixo já começa na desvantagem, o ideal é estudar a luta numa distância segura onde não receba golpes e ter uma boa movimentação e tempo de entrada.
 
 Uma coisa é certa, quando entrar para golpear irá receber um ou outro golpe, não tem jeito, terá que andar para frente receber e atacar. Bloqueios em dia, um bom equilíbrio com base firme e golpes duros são fundamentais.
 
No clinche essa desvantagem do atleta mais baixo continua, as pegadas favorecem sempre o mais alto, joelhos e cotovelos entram com maior facilidade num ângulo favorável, além dos mais baixos terem que fazer muito mais força nesse trabalho.
 
Por isso atletas descem tanto de categoria muitas vezes, por pegarem teoricamente atletas menores, não apenas de peso em si mas principalmente em altura.
 
Outros que tiram o sono são os canhotos. A vantagem deles já começa no fato de estarem acostumados a lutar contra destros, o que não é tão comum do outro lado, muitas vezes não tem nenhum atleta assim na equipe para se treinar junto.
 
É engraçado ver dois canhotos se enfrentando, principalmente aqui no Brasil, em sua maioria os dois ficam perdidos não entendendo muito bem o que está acontecendo,  torna-se uma luta amarrada, com golpes sem distância.
 
Eu particularmente gosto de treinar canhoto. Se Muaythai é básico, jogo de canhoto na minha visão é o básico dividido por dois. O posicionamento de luta que os atletas ficam permitem que os golpes entrem praticamente de um mesmo lado durante a luta.
 
Acabam causando muito mais dano, os chutes vindos de trás entram inteiros nos braços, os joelhos entram bem de frente e os diretos tem uma avenida para atravessar a guarda do oponente. Aliás muito cuidado com o direto de um canhoto, golpe que vêm do nada e com muita potência.
 
Se movimentar sempre para o lado da perna da frente dele, fugindo desse campo minado e saber a hora certa de golpear e se movimentar são de grande valia numa luta assim.
 
 Um bom canhoto não precisa de muito para ser feliz. Sabendo usar bem o jab e teep para controlar essa distância, um bom bloqueio de esquerda e aquele básico bem feito irá dificultar a luta para qualquer destro. 
 
Afim de estudo, alguns canhotos que vale a pena acompanhar além de Panpayak já citado, são a lenda Saenchai que é baixo mas compensa com sua extrema habilidade e genialidade;
 
Yodsanklai que infelizmente se aposentou, ganhou tudo e luta simples, jogo extremamente duro, mas simples e independente da situação adversa que esteja lá vai ele caminhando para frente. Tem um míssil na mão esquerda e uma barra de ferro na perna esquerda;
 
Sangmanee que é do tipo que bate e não deixa bater, usa a inteligência e muito antijogo em suas lutas.
 
Sam-A que pode ganhar qualquer luta chutando apenas de esquerda sem grandes problemas.
 
E ainda se quiser uma referência nacional, indico Ricardo Pacheco da Omnoi, vale a pena conferir suas lutas, atleta de muita qualidade técnica e inteligência.
 
Uma luta interessante de assistir e ter essa noção é Buakaw vs Khayal Dzhaniev da Rússia no Top King World Series 2015. Buakaw dispensa apresentações mas nessa pegou um russo que só pelo fato de ser russo já seria preocupante, ainda o abençoado era canhoto, forte, bravo e doido como todo russo que se preze. 
 
Os chutes de esquerda que o Buakaw adora não entraram como de costume pelo fato do posicionamento que citei, e os cotovelos do russo entraram com maior facilidade, logo no começo já conseguiu abrir um corte. Acho que foi a luta que vi o Buakaw mais perdido de todas que já assisti dele, e na minha opinião o maior fator para isso acontecer foi esse, pegou um canhoto duro onde sua maior arma não surtia tanto efeito.
 
Enfim, a ideia é mostrar como as características físicas  podem e devem influenciar no trabalho. Mas não existe receita de bolo, cada atleta é único, cada luta tem suas particularidades e deve se adaptar a cada uma sempre se doando ao máximo nos treinos e estudando suas referências, absorvendo o que soma, descartando o que não se encaixa e aos poucos montando sua própria identidade. 
 
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Felipe Cazolari
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Felipe Cazolari

Professor de educação física, treinador do ano em 2016, fundador da Warm Up, constrói academia, é casado, e ainda cuida de 3 cachorros. Fale com ele no cazolari@yoksutai.com, ou no facebook aí do lado.
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Comments

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2 comments

  1. Não pratico Muaythai, mas gostei muito desse texto.

    Você parece ser o tipo raro de pessoa com quem gostaria de trocar ideias. Sinceramente, até em universidades (ou principalmente em universidades) não vejo ninguém capaz de expressar tanta informação de maneira interessante, instigante.

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