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Arte de utilizar planejadamente os recursos de que se dispõe ou de explorar de maneira vantajosa a situação ou as condições favoráveis de que porventura se desfrute, de modo a atingir determinados objetivos.

Manobra ou artifício engenhoso; ardil, subterfúgio, estratagema.

Sun Tzu já escrevia o livro A arte da Guerra em IV a.C. Assim, é impossível datar quando nasceu a estratégia. Aliás, se você parar para analisar a forma como a natureza se comporta, pode-se dizer que ela é algo atemporal, uma vez que mesmo seres vivos considerados incapazes de pensar podem apresentar comportamentos de estratégia de sobrevivência.

Minha pergunta é: se até um fungo se comporta de forma a se preservar, como podemos nós seres humanos, do alto da cadeia alimentar, subir em um ringue com outra pessoa (que claramente tem o objetivo de nos machucar) sem uma estratégia? E o pior é que acontece.

É claro que quando se trata de um estreante (quando fica, portanto, difícil até prever o comportamento dele mesmo, imagine então do adversário), ou quando não se conhece o atleta a ser enfrentado, tudo se complica. Mas não há nada de errado em adaptar sua estratégia ao longo da luta, muito pelo contrário, errado é insistir em uma abordagem que claramente está fracassando.

Mas quando não se conhece o adversário, no mínimo, sabe-se quais são os pontos fortes ou fracos de seu próprio lutador. E já que falei de Sun Tzu, vale lembrar sua citação mais famosa:

Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.

Montar uma estratégia de luta eficaz não é algo tão simples quanto parece. Ela precisará ser traçada especificamente para cada adversário e para cada situação (usar a mesma estratégia durante uma revanche, por exemplo, pode torna-lo previsível e colocar tudo a perder) e dependerá da perspicácia e experiência do lutador e de seu corner, mas há alguns pontos básicos que minimamente precisam ser lembrados durante o combate e que podem ser decisivos.

– Evitar se expor: não adianta fazer mil firulas na luta se nem o feijão com arroz estão dando certo, faça o que você sabe e o que faz bem; na mesma linha de raciocínio, se você não está acostumado a aplicar golpes giratórios ou com saltos, não é na hora da luta que vai resolver testá-los, esses golpes te deixam vulnerável e se repetidos ficam mais fáceis de prever.

– Não insistir no erro: se você está tentado aplicar uma queda ou qualquer outro golpe e não consegue, não fique insistindo repetidamente. Não há uma lista de movimentos que precisam ser completados para que você mostre ser um bom lutador, então é melhor passar a luta inteira usando chutes baixos de forma contundente do que passar a luta toda tentando cotoveladas que nunca atingem seu adversário. E lembre-se que em algumas situações isso só faz com que seu adversário pareça superior a você.

– Não seja um espelho: lutador espelho é aquele que se deixa levar facilmente pela estratégia do adversário, ainda que ela seja desfavorável para ele mesmo. Em geral, acontece com aqueles que querem “descontar” golpes recebidos. Tomei um soco, então preciso conseguir dar um soco também. Tomei uma queda, então preciso derrubar ele. Faça o seu próprio jogo e use golpes que mostram que você é superior. Você pode ganhar uma luta respondendo chutes com socos, desde que seus socos sejam mais contundentes e deixem claro que você está machucando mais o seu adversário do que ele a você.

– Movimente-se: há aqueles lutadores que ficam plantados no mesmo lugar, ou que só se movimentam quando tomam golpes, geralmente para trás. Mesmo que você seja fimeau, você pode buscar uma movimentação que não seja apenas andar para trás. Saiba cercar seu adversário, ou se for necessário recuar, saiba fazê-lo sem se prender nas cordas sempre, pois isso pode ser perigoso.

– Encontre sua distância: como o Cazolari explicou em seu último texto (clique aqui para ler), se você é alto, o melhor será jogar na longa ou curta distância, na média entrará na linha de golpes do seu adversário. Se é baixo, terá de procurar a curta e inevitavelmente tomará alguns golpes para alcançar o outro lutador. Além disso, seja lógico, se você não quer clinchar, não use golpes que permitirão o seu adversário grudar com tanta frequência. Não é que você não possa tentar aplicar cotoveladas, por exemplo, mas dê prioridade a golpes de longa distância e deixe cotovelos e joelhos para usar como contra-ataque quando seu adversário conseguir encurtar.

– Não caia em provocações e jogos psicológicos: o muaythai não é como o UFC, mas desestabilizar o psicológico do adversário não é nenhum truque novo, e no final pode ser uma maneira muito eficiente de vencer. Se é uma estratégia válida ou não é da moral de cada um, mas o fato é que você pode vir a enfrentar um adversário que use essa artimanha. Nesse caso, mantenha a calma e foque na estratégia traçada junto com seu treinador. Nada de ir para cima sem pensar ou querer “descontar” os golpes recebidos. Faça seu jogo e lembre-se que os juízes também avaliam o fairplay.

– A defesa é o melhor ataque: quantas vezes você viu um lutador que estava claramente vencendo ser nocauteado, ou por excesso de segurança ou por um descuido? Seja no início do combate para se proteger ou no final da luta para assegurar seu resultado, bloquear chutes e fechar a guarda é tão importante quanto golpear. Lembre-se que um único golpe pode acabar com todo um trabalho — chame isso de golpe de sorte, oportunismo ou resultado de muito treino, mas não corra o risco de ser nocauteado.

– Conheça as regras do jogo: se você não souber como pontuar, como vai traçar uma estratégia? E não basta que seu corner entenda muito sobre como funciona a pontuação se você não souber nada sobre isso, afinal, quase ninguém consegue seguir os comandos que vêm de fora do ringue instantaneamente, e você não pode depender dele para cantar absolutamente cada golpe. (Você pode encontrar informações sobre pontuação nesse vídeo e nessa série de entrevistas com os representantes da FEPLAM, AMTI e EKB)

– Tenha um jogo reserva: é muito comum dizer que determinado lutador é um muay khao, mas tem uma mão pesada, por exemplo. Saiba qual é o jogo no qual você é bom, mas nunca tenha apenas uma ferramenta à sua disposição. Treine para melhorar seus pontos fracos e desenvolver ainda mais seus pontos fortes, e sempre tenha um estilo alternativo para o qual possa recorrer. Seu melhor jogo não deu certo? Ok, qual é o seu segundo melhor jogo? E esteja preparado para usar até o que seria seu ponto fraco, já que seu adversário pode ser ainda pior nele.

– Saiba ler seu adversário: encontre as falhas dele, perceba se ele bloqueia, se a guarda é firme, se finta, quais são os pontos fortes. Você pode explorar fraquezas, mas também pode tentar limitar vantagens alheias (se ele gosta de pegar de mão, chute os braços; se gostar de chutar, use chutes baixos para machucar suas pernas, e por aí vai). Embora na Tailândia os dois primeiros rounds costumem ter um ritmo mais lento de luta muito em decorrência das apostas, esse também é o momento de estudar seu oponente. Teste o clinche, a força, seu tempo de resposta, esse é o momento de saber com o que você irá lidar nos próximos rounds.

– Use o tempo a seu favor: são 5 rounds, se você acha que seu gás pode não ser suficiente, se segure um pouco no começo e tome cuidado para não ir na onda do seu oponente e se empolgar antes da hora. Em compensação, se a luta já está no final e você tem certeza absoluta do resultado, é uma boa ideia não se arriscar demais. Se não quer “fugir” do embate mantendo distância, ao menos lute com a consciência de que um único golpe bem dado pode levar por água a abaixo todo o seu trabalho até ali.

Como cada lutador tem seu jogo, não dá para criar um manual de estratégia do tipo “se seu oponente fizer isso, responda assim”. É necessário se traçar um plano, mas ele dever se adequar às habilidades e limitações do lutador. O importante é conseguir usar mais cabeça e não só os punhos: é comum se preocupar mais em machucar do que em estudar o adversário, o que por sinal também é extremamente importante, mas se for possível faze-lo de forma mais inteligente e se preservando, essa pode ser uma boa opção, afinal, logo logo você terá outra luta.

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Nathalia Viana

Analista financeira que conheceu o muaythai, e parece que já não liga mais para hematomas. Aqui ela conta um pouco das suas experiências, como mulher, e como praticante. Fale com ela no nathalia@yoksutai.com, ou no facebook aí do lado.
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