Coluna da Nathalia

Nem todo mundo é atleta, nem todo atleta é igual

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Se você é adepto do “aprendi assim, é assim que eu vou ensinar” você provavelmente não irá gostar da coluna de hoje.

Por mais difícil que seja aceitar isso, as coisas mudam. O muaythai que se lutava há alguns anos atrás no nosso país, hoje é visto como ultrapassado. Nós evoluímos, o próprio esporte evoluiu. É claro que os golpes não se transformaram e provavelmente isso não ocorrerá, mas ainda assim, muitos aspectos mudam com o tempo. Prova disso? Até algum tempo atrás mulheres não podiam lutar em estádios, ou eram obrigadas a lutar por último para que não trouxessem má sorte ao ringue. Hoje, embora ainda sejam poucas lutas nos grandes eventos, as bolsas sejam mais baixas e ainda entremos no ringue por baixo das cordas, já há lutas femininas em grandes eventos, como o Thai Fight por exemplo.

Evoluir não é apenas necessário, é o rumo natural das coisas, mas isso não pode acontecer apenas dentro dos ringues. Do que adianta fazer o ram muay, ter postura, fazer tudo bonitinho, se fora do ringue e, principalmente na preparação dos nossos atletas, ainda somos primitivos?

Não é novidade nenhuma que vida de treinador não é fácil. O papel está longe de se resumir a ensinar como executar cada técnica e o trabalho não acaba quando a academia fecha. Além de se preocupar com a saúde, a dieta, o descanso e, no caso dos menores, até das notas dos atletas, o treinador ainda precisa ser “psicólogo”.

Precisa sim, porque se você é do tipo que sobe no tatame, passa um monte de sequências e só, vai ficar bem difícil formar grandes lutadores.

Primeiro, nem todo mundo é atleta. Aceitem isso. Tem muita gente que é muito boa em muaythai por aí, mas não quer subir no ringue. Ou subiu e viu que não era o que queria. É claro que é importante para a evolução do esporte incentivar o surgimento de novos atletas, mas você pode acabar perdendo um aluno se tentar força-lo a fazer algo que não quer. Além disso, no Brasil é difícil se dedicar apenas ao muaythai considerando o baixíssimo retorno financeiro, então aceite que alguns vão querer lutar só de vez em quando, ou vão querer distância do ringue. Paciência…

E por fim, nem todo atleta é igual. Atletas podem até ser considerados super humanos, seres capazes de aguentar níveis de dor e pressão além do normal, mas no final do dia atletas são apenas pessoas comuns. Eles querem comer fastfood, querem dormir até mais tarde, têm mau humor, sentem dor, têm milhares de preocupações fora do tatame que podem atrapalhar seu rendimento e têm dias ruins, como qualquer ser humano normal.

Não é porque você viu um vídeo de um treinador tailandês batendo com o aparador na cara do lutador que vai querer fazer isso dentro da sua academia. Primeiro, porque aqui são poucos os que vivem disso como lá, segundo porque você vai acabar machucando seu atleta e tirando ele de combate, terceiro porque se você fizer isso aqui há grandes chances de que aquela pessoa não volte no dia seguinte.
“Mas se você é lutador você tem que aguentar”. Não é bem por aí. Para começar, vale lembrar que culturalmente somos um povo muito diferente dos tailandeses, somos mais calorosos e não crescemos dentro de uma academia de muaythai (pelo menos a maioria esmagadora de nós não, porque tem uma molecada passando por isso hoje, mas são poucos).

Mas não é só isso, o que é realmente necessário lembrar é que cada pessoa reage de uma forma diferente à situações de pressão. Alguns poucos encaram como superação, e é nesse momento que você os vê crescer e mostrar o melhor de si, mas outros não. Para ser lutador é preciso saber lidar com a dor, com o cansaço, com a pressão e com seus próprios limites. Mas isso não significa que todos tenham que ser imbatíveis, nunca chorem, nunca reclamem…

É papel do treinador saber identificar o momento de dar bronca e cobrar mais, mas também o momento de ceder, de afrouxar as rédeas. Quando a corda é esticada ao limite, puxar mais um pouquinho não a torna mais elástica, em vez de esticar mais ela se rompe. Treinador tem que conhecer seu atleta. É por isso que se adaptar a uma nova equipe não é simples, porque não sabemos o que é manha, o que é o famoso migué, e o que é o limite do atleta recém chegado.

Você pode ter atletas semelhantes, mas também pode ter atletas totalmente diferentes. Há aqueles robozinhos, que você manda e ele faz, você bate e ele absorve, e nunca questiona. Mas também há aqueles que não funcionam assim, que precisam entender o que estão fazendo para fazer bem feito. Veja, ninguém está falando de corpo mole, não é isso, mas algumas pessoas funcionam muito bem na porrada, outras precisam de conversa, de incentivo. Obviamente, o primeiro tipo é o ideal, é esse que você quer, mas será que em um cenário onde o muaythai tem tão poucos praticantes como o Brasil dá para ficar escolhendo só o lutador nato?

Se você só estiver interessado em treinar super atletas, então faça do seu jeito e quando algum lutador desistir, diga que ele é quem não era atleta. Levar à grandeza quem já é grande é fácil, mas treinador de verdade é quem vê a grandeza em quem se vê pequeno.

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Nathalia Viana

Analista financeira que conheceu o muaythai, e parece que já não liga mais para hematomas. Aqui ela conta um pouco das suas experiências, como mulher, e como praticante. Fale com ela no nathalia@yoksutai.com, ou no facebook aí do lado.
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