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Como organizar o muaythai no Brasil, CREF, outra confederação ou ninguém?

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Já concordamos que o esporte iniciou aqui no Brasil de forma errada, anos e anos vivendo uma realidade que não que será mudadada dia para a noite. O déficit de conhecimento técnico e regras estamos aos poucos conseguindo sanar através do esforço de muitas pessoas interessadas. Hoje já é possível ter informação e trabalhar corretamente, basta abrir os olhos mais amplamente e sair de sua zona de conforto.

Porém, um reflexo que esse início tem até hoje e que não vejo uma saída fácil ou rápida mas que devemos começar a nos atentar e nos incomodar é na parte de organização. Estamos em um zoneamento quase que de guerra, onde o Muaythai é o foco da dominação, a terra lucrativa, onde existem diversas frentes se degladiando para terem o controle de tudo.

Por exemplo, se pararmos para pensar, hoje, quem pode dar aulas de Muaythai? A resposta é: qualquer pessoa, qualquer um pode montar uma equipe, qualquer um pode se dizer professor e o mais engraçado ou preocupante é que apesar disso não sou a favor de uma padronização, não sou a favor de uma única entidade ter o poder de ditar as regras e fiscalizar o trabalho de todos. 

Isso porque quem estaria à frente para nos “defender” lutando pelos nossos direitos e ideais seriam as federações e confederações. O que seria uma boa se fossem lideradas por pessoas competentes, respeitadas e que realmente o foco deles estivessem no crescimento.

Porém sabemos que isso está longe de ser a realidade, pelo menos da grande maioria. Acabam sendo outra “facção” rival nessa guerra com seus grão mestres querendo dominar e ter direito sobre tudo e todos. E ainda presos ao que achávamos que seria o Muaythai anos atrás. Entidades que deveriam unir e evoluir o esporte mas que na prática fazem das confederações o quintal de suas casas e atrasam e dividem os praticantes e equipes. Cada uma olhando para seus próprios interesses.

Temos também o CREF/CONFEF atacando por outro lado, travando uma briga há anos onde querem tomar para si a responsabilidade e regulamentação dos professores de Artes Marciais dentro de suas normas, onde só professores formados poderiam atuar. Porém hoje AINDA não têm autonomia para isso, não têm esse poder de fiscalização nessa área.

Fazendo um resumo bem por cima, o CREF alega que qualquer prática de atividade física deve ser ministrada por profissionais de Educação Física para a segurança dos praticantes. Em contrapartida professores de Artes Marciais alegam que para isso o professor deve ter anos de prática na modalidade, ser formado na arte, ter amplo conhecimento técnico, regras e conhecer a cultura e tradições, o que diferencia a Luta da Arte Marcial.

Ainda bem que a briga do CREF é com todas as Artes Marciais, porque se fosse exclusivamente direcionada ao Muaythai teríamos grandes problemas já que nós mesmos não sabemos os requisitos para se tornar um professor da modalidade. O que impede um formado em Educação Física exercer essa função? Já que a maioria de nós mesmos pregamos que não existe uma forma de se tornar professor definida? 

São contra sistemas de graduação por não existir na Tailândia, o que é verdade, porém devemos levar em conta que estamos em outro contexto cultural, social, político, legislativo, educacional e marcial. Mas o problema é que tudo que envolve dinheiro acaba tendo corrupção, então até esse sistema fica desacreditado por ser mais uma fonte de comércio para determinados líderes que prezam mais o dinheiro no bolso e quantidade do que a qualidade do crescimento e consequentemente do esporte.

Eu sou a favor de graduação aqui, acho que é um bom termômetro de hierarquia, respeito, motivação e formação para dentro de minha equipe e com equipes próximas ao qual conheço o trabalho. Não é uma coisa que vejo dando certo a nível nacional por conta de muita diferença técnica, comprometimento, corrupção, padrões definidos de cobrança e uma série de outros fatores.

Mas voltando ao foco, sem esse padrão definido de quem pode ou não a dar aulas, pessoas sem formação na Arte continuam usando o Muaythai para atrair público e darem aulas bizarras dizendo ser Muaythai, o que é diferente de utilizar movimentos de luta numa aula de preparação física o que seria até razoável. 

Em contrapartida nós professores de Muaythai criticamos tanto que entram em nossa área porém vejo muitos darem uma aula inteira de treinamento funcional entrando assim na área dos formados, então qual seria a lógica? Temos sim que dar aquecimento, exercícios de força que fazem parte de qualquer modalidade, mas acredito que há um exagero dos dois lados e temos que nos colocar no nosso lugar também.

Sem contar no meio dessa bagunça toda professores de outras Artes Marciais “migrando” para o Muaythai fazendo absurdas adequações de grau para se tornarem “aptos” a dar aulas pelo apelo midiático que o Muaythai traz na chamada de alunos para a academia. Não só professores de Kickboxing mas também karatê, taekwondo, capoeira até jiujitsu já vi acontecer.

E por fim mas não menos importante temos os que trabalham sério, que buscam a evolução real do esporte trabalhando quase que numa sociedade paralela. Esses ficam a margem de tudo isso, porém são com esses que temos de nos unir, são esses que devem se juntar e ganhar força como tem acontecido.

Os caminhos que vejo são tomar uma confederação, mas para isso deve-se fazer parte da mesma, montar uma chapa opositora e ganhar as “eleições”. Isso tomaria tempo e dinheiro de muita gente e acho que não estamos dispostos a isso, dar mais dinheiro para o bolso dessas pessoas. O que dá raiva é saber o quanto de dinheiro de verba pública entra para o esporte e acaba se perdendo ou pelo menos não indo para quem realmente precisa e se destaca e estão no topo do esporte a nível nacional por estarem fora dessas entidades.

Então criamos ligas, associações, conselhos com essas pessoas com mesmos ideais. Assim foi criada a CMPRO que acabou não vingando, a AMTI que a princípio tinha muitas boas ideias objetivos maiores em organizar o esporte mas por muitos motivos e falta de apoio na causa que seria na realidade de todos resolvemos focar apenas na arbitragem, que é o que tinha maior defasagem aqui nos eventos. Temos a Liga Nordeste, Conselho Mineiro, enfim, pequenos grupos que se unem para trabalhar com seriedade em prol do esporte, buscando levar conhecimento, fazer eventos corretos e valorizar os atletas. Isso poderia ter uma força maior a nível nacional, se cada grupo desse espalhado pelo Brasil trabalhasse juntos mas infelizmente a real é que nem nós que buscamos o certo nos entendemos. 

É difícil organizar uma coisa que já começou desorganizada lá atrás e hoje cada um tem as suas verdades, seus ideais, suas ideias e vivências e juntar tudo isso numa coisa só sem ter uma pessoa ou um grupo responsável, disposto a trabalhar e que todos apóiem é muito difícil. Dinheiro, vaidade e poder acabam falando alto seja por quem está com a iniciativa ou quem ficou de “fora”, entre aspas porque não entendem que seria um ganho para todos e ao invés de se juntar acabam remando contra com discursos de formação de “panela”.

Enquanto essa utopia de união e movimentação coletiva não acontece vamos trabalhando no meio dessa bagunça dividindo espaço com Confederações, Cref’s, picaretas e quem mais aparecer e trabalhando cada um com sua equipe, fazendo o nosso papel bem feito, com pessoas ao redor que estejam para somar. Estudar, trabalhar e ter sua consciência tranquila de estar fazendo o melhor e ajudando o esporte de alguma forma.

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Felipe Cazolari
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Felipe Cazolari

Professor de educação física, treinador do ano em 2016, fundador da Warm Up, constrói academia, é casado, e ainda cuida de 3 cachorros. Fale com ele no cazolari@yoksutai.com, ou no facebook aí do lado.
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5 comments

  1. Cazolari excelente texto . Acho que esse é um debate que não tem um fim á curto prazo . Eu ainda sugiro que existisse um work shop com tailandeses e que de alguma forma eles fossem responsáveis por de alguma forma nomear pessoas para se criar uma entidade que fosse administrar bem o esporte . Em Santos tem uma galera fera , tem o Reni Fraga , Léo Monteiro não precisa nem falar com o que tem feito, Pedro Novaes deu um grande passo, Alex Paraná em curitiba , Luis Ricco ; gente qualificada tem aos montes o importante é surgir mais e mais idéias e gerar debates. Por exemplo; existe a seleção brasileira, mas se eu não me engano já vi 2 entidades distintas terem uma seleção para alguns campeonatos; como administrar isso para o campeonato amador internacional ? Enfim é um excelente debate que leva tempo a ser concretizado, mas seguimos torcendo.

    1. Essa selecao disputa eventos de muaythai amador, e sao atletas escolhidos pelos dirigentes dessas determinadas confederacoes. O ideal seria organizar o muaythai profissional primeiro, para depois comecar a mexer com muaythai amador.

  2. Concordo inteiramente Felipe, somos de Alagoas – Maceió, fazemos parte da família do MuayThai Thamir Pereira e pensamos da mesma forma. Lutamos e treinamos para fazer o feijão com arroz bem feito e o mais preciso possível dentro das regras que acompanhamos nos campeonatos e torneios de lá da Tailândia e alguns daqui do Brasil! Estamos cansados de picaretas, federações, confederações. Apesar de possuirmos a nossa própria associação (ANMAL – Associação Nak Muay Alagoana), mas com certeza essa foi fundada e voltada filantropicamente para os trabalhos sociais e disseminação da arte das oito armas. Pode-se considerar aliados nessa batalha.

  3. ótimo texto! tá mais que na hora de se organizar.
    Sem criticas, sem vaidade, sem ego. Não adianta como foi citado, estamos em outro contexto cultural.
    concordo com Graduação, mérito e reconhecimento a dedicação do aluno ou futuro professor, feito de forma sensata coerente sem visar somente $cifras como ja vi muito por ai.
    migrei do kick boxing, e é muito diferente do Muaythai, didática, regra e pontuação. Temos Grandes nomes e pessoas trabalhando pra essa evolução, creio que estamos no caminho e questionamentos como esse são validos. Só levantando essas questões pra gerar uma união integração maior de quem realmente quer ver o crescimento do esporte e não de si próprio

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