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O tabu dos cotovelos

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O Muaythai é uma arte marcial que apesar de trazer muitos elementos culturais, hoje está cada vez mais voltada em seu lado competitivo. O esporte assim como conhecemos hoje com luvas, divisão por rounds, peso, regras, pontuação, apostas e etc não possui nem 100 anos e tradições e costumes antes rigorosos estão cada vez mais flexíveis. 
 
Não vou entrar no mérito se isso é legal ou não. Não é meu intuito nesse texto. A questão que é importante termos em mente é que todas as adaptações e mudanças devem ser vindas e orientadas pelo país mãe da Arte, ou seja, a Tailândia, e isso deve ser respeitado. Não cabe a nós qualquer alteração e sim seguir o máximo a risca o que os tailandeses ditam como certo.
 
Lógico que estamos no Brasil, outro contexto cultural, legislativo, etc, então algumas coisas como colocar material de proteção em menores ou iniciantes por exemplo são aceitáveis e até necessários. Mas nunca mudar a regra do esporte. Seus princípios e fundamentos devem sempre ser respeitados.
 
Contudo, em muitos lugares ainda encontramos muita resistência principalmente entre treinadores e promotores de  eventos em implementar o certo. Por ego ou medo de assumir perante os alunos que precisam de uma reciclagem e o que ensinavam até o momento não era exatamente o correto. Hoje a informação está aí, acessível a todos e não tem mais espaço para bizarrices e misturas dentro do esporte. 
 
Entre as muitas questões de quem está iniciando a mudança o uso dos cotovelos é o que causa maior receio e é sobre isso que quero tratar hoje.
 
Uma coisa é fato, sem cotovelo, sem Muaythai! É como se tirasse a cortada do Voleibol ou o direto do boxe inglês. Faz parte da estrutura e dinâmica da luta.
 
Inaceitável ainda ter eventos proibindo o uso dos cotovelos e se denominando Muaythai. Aliás não entendo esse medo todo de promotores e treinadores em relação a isso, já que eventos ainda ditos “amadores” (entre aspas pois usamos esse termo mas não é o correto. Muaythai amador é praticamente outro esporte em relação a pontuação, e aqui no Brasil usamos o julgamento da regra profissional para todos) geralmente colocam capacetes e cotoveleiras, o que dificulta muito a efetividade desses golpes. 
 
O uso das cotoveleiras são uma forma de resguardar a integridade dos atletas, já que não recebem bolsa para lutar, no máximo uma ajuda de custo, então o uso do equipamento dificulta os cortes sem precisar alterar a base esporte.
 
(Uma curiosidade é que na França, uma das potências mundiais do esporte, não são permitidas lutas de Muaythai sem o uso desse equipamento mesmo para atletas profissionais. Já vimos Saenchai por exemplo, uma lenda do esporte lutando de cotoveleiras em território francês.)
 
Nessas situações, um chute na cabeça por exemplo traria muito mais risco aos atletas, além de que, em muitos casos, passa-se a luta toda e nenhum golpe desse tipo acaba sendo desferido e mesmo quando ocorre em sua maioria percebe-se que não sabem bem o que estão fazendo pela falta de costume e conhecimento.
 
Mesmo em eventos já com uma galera mais experiente na regra como aqui na Baixada e na capital de São Paulo é muito difícil ver um nocaute causado por cotovelo. Cortes ainda são mais comuns, mas nocautes são realmente bem difíceis de acontecer.
 
Atletas que usam bem essa arma são temidos e seus adversários já entram com uma atenção maior, sabendo que qualquer vacilo podem ter sérios problemas. Há lugares na Tailândia onde o lutador recebe um acréscimo em sua bolsa por cada ponto recebido na luta devido a cortes. Ninguém quer sair parecendo o Frankstein mas pelo menos é uma consolação quando acontece.
 
 Existem muitos lutadores peritos nisso, podemos citar como exemplos Muangthai, Saiyok que têm a mania chata de retalhar seus oponentes. Aqui no Brasil podemos citar o Marco Black Diamond, João Victor, Sem Maldade, entre outros que fazem bem esse jogo.
 
Cotoveladas são golpes plásticos e que se bem executados podem fazer um verdadeiro estrago, porém não são tão simples de serem executados com perfeição. 
 
Não adianta bater de qualquer jeito, sair dando um combo de cotovelos ou no clinche dar aqueles mil seguidos achando que está fazendo muito. 
 
Geralmente as situações que têm maior sucesso são quando lançados de encontro durante um ataque de seu adversário, nas brechas do clinche, buscando utilizando fintas ou explorando erros de guarda do adversário. 
 
Esses golpes além de conhecer a biomecânica do movimento, o atleta deve ter o tempo certo de entrada, visão de luta para achar o momento oportuno, noção de distância e a angulação mais adequada para cada situação. E tudo isso deve ser treinado e orientado dentro da academia pelo treinador que utiliza principalmente o trabalho de aparadores para simular situações de luta, posicionando corretamente os pads e dando comando coerentes para o atleta trabalhar desenvolvendo seu tempo de reação em todos esses quesitos para que na hora da luta a mágica aconteça.
 
 No clinche para quem já tem uma certa experiência pode ser treinado simulando o golpe ou até mesmo batendo com antebraço controlando muito bem a força e nunca batendo com a ponta do cotovelo para acertar seu colega de treino.
 
Existem treinadores que usam também no treino de sparring. Se isso acontecer deve-se tomar muito cuidado e ter um objetivo direcionado naquele trabalho usando as devidas proteções e moderando a força. Eu particularmente não aconselho muito, acredito que um trabalho de pads bem feito seja suficiente para lapidar esse recurso, mas cada treinador sabe e conhece o próprio trabalho e cada um possui suas particularidades.
 
Dentro da luta, a cotovelada é um golpe como outro qualquer, ou seja, tem que causar dano, cortar, fazer o adversário sentir. Usar a ponta do cotovelo como uma navalha com o movimento certo afim de cortar. 
 
Sangue é uma coisa comum dentro de uma luta de Muaythai, faz parte do esporte e é importante ter em mente que não é porque conseguiu um corte que já venceu a luta, lógico que um corte é bom, vai te fazer andar na corrida, será levado em conta, porém não garante a luta. Sangue impressiona a torcida mas não é garantia de vitória.
Existem certos locais que possui um fluxo grande de sangue, lutas sangrentas são comuns e isso é um dos pontos que assustam promotores em lutas serem paradas rapidamente por conta disso. 
Pensando nisso, além de ter um corpo de arbitragem qualificado para essas situações, uma ação que vem dando certo aqui em São Paulo é a contratação de médicos para os eventos que já estejam acostumados com o meio das lutas e entendam que isso faz parte do espetáculo. Assim, conhecendo tudo que está envolvido realmente só param a luta quando o corte causa risco real para o atleta e não simplesmente encerram por qualquer cortinho afim de se resguardar. Caso tenha médicos presentes que não estejam acostumados vale o promotor ou o diretor de arbitragem conversar pré evento com a equipe médica a respeito.
Em relação aos atletas, entendam uma coisa. Quando receber um corte durante uma luta, haja como se nada tivesse acontecido, ou melhor, use isso como combustível para te motivar a correr atrás e descontar esse dano. A partir do momento em que mostra preocupação em relação ao corte o árbitro irá parar a luta e chamar o médico pela sua atitude de preocupação com sua própria integridade.
Quem manda em cima do ringue é o árbitro central, a palavra e as ações dele ali são leis. Porém, a partir do momento em que convoca a subida do médico ao ringue essa autoridade passa a ser do médico e a palavra dele é a lei máxima não podendo ninguém voltar atrás de sua decisão. Se o médico disser para encerrar a luta, a luta será encerrada independente da vontade do atleta, córners ou comissão de arbitragem, o que cabe a todos nós é respeitar a posição do profissional responsável presente.
Sabendo que sangue faz parte do esporte, é importante alguns cuidados que muitas vezes não damos a devida atenção. Da mesma forma que nós treinadores devemos ter a responsabilidade de pedir exames médicos cardiológicos para nossos atletas, deveríamos incluir também exames de sangue anuais afim de evitar qualquer possível contaminação entre atletas e árbitros. Precaução nunca é demais.
Enfim, espero que ajude a quebrar esse tabu que ainda atrasa nosso esporte, e promotores e treinadores entendam que sem cotovelo não é Muaythai e que também não é um bicho de sete cabeças. 
O Muaythai aqui está cada vez mais nivelado com muitas equipes fazendo excelentes trabalhos mas ainda estamos longe da uniformidade, não digo nem em qualidade mas pelo menos no sentido da responsabilidade com o correto, sem misturas. Vamos trabalhar para evoluir cada vez mais até alinharmos o país todo dentro da verdade, temos muito material humano de qualidade para tornar nosso país uma grande potência do esporte no mundo.
 

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Felipe Cazolari
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Felipe Cazolari

Professor de educação física, treinador do ano em 2016, fundador da Warm Up, constrói academia, é casado, e ainda cuida de 3 cachorros. Fale com ele no cazolari@yoksutai.com, ou no facebook aí do lado.
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