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Você é mais forte que tudo isso

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Aos 14 anos eu era só mais uma adolescente normal. Queria me divertir e ser aceita no meu grupinho, era cheia de inseguranças e estava tentando encontrar quem eu realmente era. E minha aparência parecia ser a resposta para tudo isso.

Eu queria ter o cabelo liso, o nariz menor, e queria muito ser magra. Queria ter a barriga chapada, porque talvez assim ninguém notasse minhas estrias, celulites, cicatrizes e todos os defeitos que me pareciam gravíssimos no meu corpo.

Eu nunca fui extremamente magra, nem no auge da bulimia. Também nunca fui obesa, mesmo no auge da compulsão. Talvez por isso o distúrbio alimentar nunca tenha causado alarde para mim ou para as pessoas à minha volta, mas por pouco mais de 15 anos, minha relação com a comida tem sido de extremos. Só quem já passou por isso vai entender. Comida causa um prazer que faz com que tudo esteja ligado a ela: você come quando está feliz, triste, desanimado, com raiva… Todos os eventos giram em torno dela: comemorações, reuniões de família, confraternizações corriqueiras com os amigos e até a preguiça do domingo chuvoso assistindo Netflix e comendo brigadeiro.

O problema é que comer te causa tanto prazer que você não come pela fome. Você tenta tapar com comida um buraco que não está no seu estômago. E quando percebe que seu estômago já está tão cheio que dói, e mesmo assim quer comer mais, esse vazio vira um buraco negro que te consome, e aquela mesma comida maravilhosa vira a pior coisa do mundo. E você já se encheu dela. Então, de repente você é a pessoa mais fraca, mais descontrolada e mais triste do mundo. E depois de se culpar por ter jogado todo o esforço no lixo, a ansiedade, a culpa e a vontade de comer batem ainda mais forte, e aquele pequeno deslize se transforma em uma sequência de descontroles. E o sentimento de culpa é capaz vez pior.

Você já olhou no espelho para procurar sinais de que tenha engordado de um dia para o outro? Não sei se dá tempo do que você comeu num dia virar gordura estocada no dia seguinte, mas sou capaz de olhar no espelho e ter certeza que o meu abdômen está menos esculpido porque comi duas torradas a mais. E se a balança subir um dígito que seja….

Quando eu era adolescente, a estratégia para evitar comer era muito simples, eu dizia para a minha mãe que almoçaria na casa de uma amiga, e quando chegava na casa da amiga, dizia que já tinha almoçado. Ou jantado. Ou feito qualquer refeição do dia. Some a isso o consumo de remédios para emagrecer, doses irresponsáveis de laxante e consumo abusivo e proposital de álcool com o intuito de passar mal, e você vai entender como eu cheguei a pesar cerca de dez quilos a menos do que eu peso hoje.

O problema é que quando você é adulto, espera-se que você tenha uma vida social normal, que você almoce e faça refeições no trabalho, que não faça desfeita com a pessoa que teve a consideração de trazer um docinho para você.

O fundo do poço não é aos seus trinta anos ter que pensar em desculpas plausíveis e compreensíveis para faltar a um compromisso social sem ser julgado, mas perceber que você não quer ir porque está com medo de comer algo que te dá prazer.

Você já esperou ouvir a porta do elevador se fechando para ter certeza de que ninguém vai te ver comendo? Já pensou que se pular uma ou duas refeições talvez compense a besteira que acabou de comer? Você já abriu um pote e pensou “não é possível, alguém comeu isso, eu não posso ter comido tudo isso sozinha”? Já comeu algo tão rápido que quando terminou não tinha certeza se lembrava o gosto? Você tem noção do que é ter medo de comida? Eu tenho. E sabe o que é pior? O meu mecanismo para lidar com o medo seria (adivinhe!!) justamente COMER!

Hoje estou no que considero a minha melhor forma física. Estou realmente magra, mas também estou realmente forte e, o mais importante, saudável. Graças ao apoio de profissionais maravilhosos que tive a incrível sorte de me apoiarem, como o Bruno, instrutor físico, e o Humberto, nutricionista foda, que realmente entende e se preocupa com os pacientes. Mas isso não significa que seja mais fácil, porque também quer dizer que nunca tive tanto medo de perder o que conquistei quanto agora.

O muaythai me ajudou e muito a controlar a compulsão alimentar. O simples fato de fazer uma atividade física, algo que te dá prazer e se ocupar é o suficiente para aliviar a ansiedade e te dar mais controle sobre a relação com a comida. Mas é um desafio enorme fazer isso quando você não pode treinar, o que faz a prática do esporte também ser compulsiva.

Recentemente, me vi explicando para pessoas com quem compartilho a maior parte do meu dia que eu não sabia se queria comer uma coisa que me dá prazer, porque eu estava com medo. Eu não me senti bem fazendo isso, não foi uma sensação boa me expor dessa maneira, mas foi o menos mal que me senti nos últimos dias.

Então, por que diabos eu estou me expondo para toda a internet contando isso? Não é para que as pessoas me achem forte, tenham empatia por mim, me usem como exemplo, me admirem, me julguem, ou qualquer coisa do tipo. Honestamente, não me importo com o que as pessoas vão achar. Mas eu estou fazendo isso porque sei que nesse exato momento há outra pessoa se sentindo exatamente assim. E eu quero que ela saiba que tudo bem. Você não é fraca ou descontrolada. Você é mais forte que tudo isso. E não precisa passar por isso sozinhx. E se for muito difícil falar sobre isso com pessoas que não entendem o que você está passando, então fale com quem também está passando por isso. Vamos enfrentar isso juntos, ok?

Se você está passando por algo parecido, procure alguém em quem confie peça para conversar. Pode ajudar começar dizendo “estou com um problema e preciso falar com alguém que não vá me julgar”.

Se alguém que está passando por isso te procurar para conversar, não tente solucionar o problema, isso é muito mais complexo do que parece. Apenas escute, demonstre empatia, e aconselhe essa pessoa a procurar ajuda profissional.

Mas principalmente: PAREM DE DIZER PARA AS PESSOAS O QUE ELAS DEVEM FAZER COM O PRÓPRIO CORPO! Pare de dizer que alguém está magro demais, gordo demais, forte demais ou seja o que for. Se essa pessoa não pediu a sua opinião é porque, desculpe te dizer, mas A SUA OPINIÃO NÃO IMPORTA!! Você não sabe o que pode desencadear um comentário como esse.

Se você gosta dessa pessoa, preocupe-se com a saúde dela, e não com a aparência.

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Nathalia Viana

Analista financeira que conheceu o muaythai, e parece que já não liga mais para hematomas. Aqui ela conta um pouco das suas experiências, como mulher, e como praticante. Fale com ela no nathalia@yoksutai.com, ou no facebook aí do lado.
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Vire Caveira

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